'Reconhecimento da cidade e do Sertão': após EUA alegarem que China construiu base militar em telescópio, moradores saem em defesa
22/03/2026
(Foto: Reprodução) Telescópio no Sertão da Paraíba é citado em relatório dos EUA sobre espionagem da China
Moradores de Aguiar, no Sertão da Paraíba, discordam de um relatório do Congresso dos Estados Unidos que alega que a estrutura do Radiotelescópio BINGO, instalado na cidade para mapear energia e matéria escura no universo, é uma base militar da China. Para a população, o empreendimento tecnólogico representa o "reconhecimento da cidade e do Sertão".
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O coordenador do projeto, que conta com parceria científica de pesquisadores chineses, o físico Élcio Abdalla, já havia ditoi ao g1 que o local não é uma base militar e reforçou o caráter científico do local. O projeto reúne instituições do Brasil e da China, como o CESTNCRI, a UFCG, a UFPB e o Governo da Paraíba.
"Além de trazer muita oportunidade e questão de emprego, está mudando a infraestrutura da cidade, está crescendo a questão do turismo, além do reconhecimento em si, da cidade e do Sertão", disse Maisa Matias, estudante e moradora.
Uma outra moradora da região, Edilene Lira, engenheira responsável pelas obras do BINGO, nasceu na cidade de Carrapateira, que fica próximo ao município do Aguiar. Na visão dela, o empreendimento foi benéfico, porque ela conseguiu aliar a profissão e ficar mais próxima da cidade, para supervisionar as obras.
"Eu nunca imaginei que realmente a Engenharia Civil fosse me levar tão longe e também, ao mesmo tempo, ela me trazer para tão perto de casa para construir algo tão grandioso", ressaltou.
O laboratório integra o projeto internacional BINGO (Baryon Acoustic Oscillations in Neutral Gas Observations), voltado à pesquisa em radioastronomia. A iniciativa também busca detectar oscilações acústicas bariônicas (BAO) por meio da observação de sinais em radiofrequência para averiguar a matéria e a energia escura do universo.
Radiotelescópio “BINGO” em Aguiar chama atenção internacional
Coordenador nega que instalações sejam projeto militar
Representação do radiotelescópio BINGO, que vai entrar em funcionamento em Aguiar, na PB, em 2022
Divulgação/BINGO
O coordenador do projeto, Élcio Abdalla, disse que o local além de não ser uma base militar também não tem ingerência dos chineses nas decisões, que quaisquer aplicações diz respeito aos brasileiros que compõem a iniciativa.
"Não tem nada a ver com aplicação militar e os chineses estão nisso numa aplicação puramente científica. Os meus colegas chineses não fazem nenhuma afirmação do ponto de vista militar", disse Élcio.
Sobre a participação chinesa no projeto, Élcio Abdalla disse que apenas três pesquisadores de universidades do país asiático fazem parte da cúpula de comando e que o governo chinês entra apenas como apoio tecnológico e dos pesquisadores e que "se houver alguma influência, é uma influência brasileira".
“Os chineses fazem parte do projeto porque são cientistas. São três pesquisadores: um deles é um que atua em duas universidades chinesas. Há também um outro que trabalha basicamente na região ao norte de Xangai. Ele coordena dois grupos em universidades diferentes e é meu amigo pessoal e parceiro de pesquisas há muitos anos, cerca de três décadas. Há 30 anos fazemos ciência juntos e orientamos estudantes em conjunto. Os outros dois participaram como estudantes: um hoje é professor no Observatório de Xangai, ou seja, é astrônomo, e o terceiro é um físico que também foi aluno do professor”, explicou.
Outro ponto em que a China faz parte no projeto é o dos equipamentos que compõem a estrutura. Élcio Abdalla contou que o telescópio foi projetado com foco na montagem em território brasileiro. Várias peças vieram do país da Ásia.
Entre as partes enviadas da China estão os espelhos primário e secundário e as torres das cornetas, que são componentes centrais do radiotelescópio. As estruturas viajaram em contêineres e foram testadas e certificadas antes do embarque.
Relatório do congresso americano
relatório, intitulado “Pulling Latin America Into China's Orbit” (“Atraindo a América Latina para a Órbita da China”, em tradução livre), cita instalações no Brasil
Erin Scott/Reuters
O relatório, intitulado “Pulling Latin America Into China's Orbit” (“Atraindo a América Latina para a Órbita da China”, em tradução livre), cita instalações no Brasil, Argentina, Bolívia e Chile que são vistas pelo comitê como suspeitas de terem uso duplo para a inteligência militar.
O documento foi elaborado pelo Comitê Especial sobre o Partido Comunista Chinês, do Congresso dos Estados Unidos, presidido pelo deputado John R. Moolenaar, representante do estado de Michigan e membro do Partido Republicano.
A Estação Terrestre de Tucano, na Bahia, foi apontada pelo relatório como uma base militar chinesa não-oficial para lançamentos especiais. Intitulada como 'Tucano Ground Station', a base é feita pela Ayla ao lado da empresa aeroespacial chinesa Beijing Tianlian Space Technology Co. Ltd. Seu desenvolvimento foi para analisar dados de satélites em observação da Terra para monitoramento dentro do Brasil.
O corpo principal do radiotelescópio Bingo foi enviado da China para o Brasil no dia 10 de junho de 2025. A estrutura saiu do Porto de Tianjin, na China, e desembarcou no Porto de Suape, em Pernambuco, após quase dois meses de transporte. Entre as partes enviadas estão os espelhos primário e secundário e as torres das cornetas, que são componentes centrais do radiotelescópio. As estruturas viajarão em contêineres e foram testadas e certificadas antes do embarque.
O engenheiro sênior Wu Yang, do 54º Instituto de Pesquisa da China Electronics Technology Group Corporation (CETC), explicou que o telescópio foi projetado com foco na montagem em território brasileiro;
“O telescópio adota uma estrutura dual com deslocamento, sendo que cada seção possui uma forma única. A instalação no Brasil será feita pelo lado brasileiro, o que exige um processo de montagem simplificado”, afirmou Wu Yang.
O Governo da Paraíba estima um investimento direito de R$ 20 milhões no projeto.
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